imagem: rogério pinto

18.5.08

Vídeo montagem sobre Lygia Clark

Para os interessados deêm uma olhadinha na montagem que fiz com as obras de Lygia e a música que o Caetano Veloso fez para ela.

Acesse o Link:

http://www.youtube.com/watch?v=TYRcKaXw6EQ

Lygia Clark e Maurice Merleau-Ponty: uma costura (Parte 3 de 3)


O tempo passado, no Caminhando, tem a característica da “redescoberta” do ato, e o tempo futuro vem das escolhas e da continuidade do gesto. Mas essas duas esferas temporais não estão dissociadas do presente, muito pelo contrário, elas só se dão no presente e só são possíveis através da experiência que é plena e incompleta ao mesmo tempo, porque lhe é característico permanecer aberta.
Tanto Lygia quanto Merleau-Ponty, cada um a sua maneira, propunham que “o caminho se faz ao caminhar”, por isso, as relações eram constantemente construídas e transformadas, como ilustram tão brilhantemente os versos de Antonio Machado:


Caminante son tus huellas

el camino, y nada más;

caminante, no hay camino,

se hace camino al andar.

Al andar se hace camino,

Y al volver la vista atrás

Se vela senda que nunca

Se ha de volver a pisar.

Caminante, no hay camino,

Sino estelas en la mar.[1]

Se não há caminho, pois este deve ser traçado a cada passo, o grande destino a ser atingido é o da experimentação, pois os “passos” é que são fundamentais para a jornada e não o local que se precisaria alcançar. Mais do que isso, os passos desaparecem logo após serem dados, exaltando com isso a relevância do presente, os versos nos orientam e aconselham: “caminhante” se não há caminho entregue-se à caminhada, entregue-se à experiência e atribua a cada passo uma importância ímpar, pois este jamais poderá ser dado novamente.
Não estou com isso querendo negar os pressupostos históricos que sustentam Lygia Clark e Maurice Merleau-Ponty, mas apenas me aproximando dos fundamentos destas obras, que viam na experimentação seus embasamentos e, no processo, um momento mais importante do que o trabalho acabado, uma vez que, ele já era o próprio trabalho. Conforme as palavras de Ponty:


Se a fenomenologia foi um movimento antes de ser uma doutrina ou um sistema, isso não é nem acaso nem impostura. Ela é laboriosa como a obra de Balzac, de Proust, de Valéry ou de Cézanne – pelo mesmo gênero de atenção e de admiração, pela mesma exigência de consciência, pela mesma vontade de apreender o sentido do mundo ou da história em estado nascente.[2]

Merleau-Ponty compara a construção da filosofia fenomenológica à construção das obras de arte. É uma edificação do pensamento, que, por tentar apreender o mundo e não teorizar sobre ele, necessita de uma atenção especial, que nunca se distancia de seu “objeto” de estudo. Contraria-se assim os pressupostos que pregam que o pesquisador e/ou o teórico deve se manter o mais distante possível de seu “objeto” de estudo, a fim de que se conserve uma suposta e pretensa neutralidade científica, a qual, para Ponty, não há como existir.


Pela primeira vez a meditação do filósofo é consciente o bastante para não realizar no mundo e antes dela os seus próprios resultados. (...) O mundo fenomenológico não é explicitação de um ser prévio, mas a fundação do ser; a filosofia não é o reflexo de uma verdade prévia mas, assim como a arte, é a realização de uma verdade.[3]

Esta neutralidade, também é exigida, de certo modo, com relação às obras de arte, mas Lygia faz questão de negá-la. Quebrando os limites tanto da obra como dos espaços expositivos, Lygia rompe com as distâncias exigidas pelo mundo da arte, tanto quanto Ponty quebra com as distâncias do mundo acadêmico.
Assim sendo é a condição de ser-no-mundo que fundam os trabalhos de Lygia Clark e Merleau-Ponty.


[1] MACHADO, Antonio. Poesias escogidas. Madrid: Aguilar, 1958, p. 254.
[2] MERLEAU-PONTY, Maurice. Fenomenologia da Percepção. op. Cit., p. 20.
[3] Idem. p. 18 e 19.

14.5.08

Lygia Clark e Maurice Merleau-Ponty: uma costura (Parte 2 de 3)

Lygia é incansável, a descoberta é o seu lema e sua maior virtude. As rupturas propostas por suas obras ou proposições são resultados, quase diretos, desta necessidade veemente de transformação.
“Só o instante do ato é vida”, afirmou Lygia Clark em 1965:

O instante do ato não é renovável. Ele existe por si próprio: o repetir é lhe dar uma significação. Ele não contém nenhum traço da percepção passada. É um outro momento. No mesmo momento em que ele se desenrola, ele já é uma coisa em si. Só o instante do ato é vida. Por natureza, o ato contém em si mesmo seu próprio excesso, seu próprio vir-a-ser. O instante do ato é a única realidade viva em nós mesmos. Tomar consciência já é ser no passado. A percepção bruta do ato é o futuro de se fazer. O passado e o futuro estão implicados no presente-agora do ato.[i]

Fica nítido, que sua criação e sua vivência estiveram, ao longo de sua existência, sempre ligados, e essa relação refletia-se em sua produção diretamente.
Para tanto, gostaria de traçar algumas considerações sobre a obra que representa uma das maiores rupturas da trajetória de Lygia, o Caminhando, de 1964. A obra se constitui de abrir uma fenda em uma tira de papel colada com uma torção de 180º, constituindo uma fita de Moebius, e quando chegar no corte inicial escolher entre continuar à direita ou à esquerda.
É evidente que cada um de nós pode fazer o Caminhando, pode inclusive realizá-lo diversas vezes, sem nunca deixar de ser, concomitantemente, o mesmo e um outro. Pela ação somos impelidos à totalidade. O corte nos faz pensar na intencionalidade e na aleatoriedade de cada gesto.

Com Caminhando fazemos escolhas, optamos por caminhos, mudamos de direção, provocamos o destino, nos perdemos, nos encontramos, temos dúvidas, temos certezas, somos exatos, hesitamos, desistimos, somos pacientes, obsessivos, descuidados, ficamos atentos, brincamos, andamos a grandes cortes, tomamos cuidado, somos indiferentes, nos arrependemos, nos entregamos, morremos. Todas as sensações e questionamentos cabem enquanto dura a experiência.
Portanto, a obra repete a condição humana em si, à de sermos sempre os mesmos e mudarmos constantemente. Desta maneira, esta “obra” poderia ser considerada uma “ode ao processo”.
Neste caso, o que temos é uma ação que só tem a intenção de existir, e não de significar, interpretar ou aludir a outras ações. O gesto é tomado por ele mesmo, com toda a intensidade do instante, sem “ter olhos” para o “por quê” ou para o “com que finalidade” este ato está sendo executado. É a suposta “banalidade” da ação de cortar o papel, que devolve o ser a ele mesmo, que o faz redescobrir a própria mão, o sentir, o escolher, enfim, a liberdade. Assim, a efemeridade da obra contrasta com a duração do sentido da vivência da obra, pois este fica fecundando passado, presente e futuro com suas provocações. A experiência não se encerra nela mesma, o Caminhando continua sempre no gerúndio, permanece infinitamente se fazendo.


[i] CLARK, Lygia. “1965: A propósito do instante”. In: CLARK, Lygia. Lygia Clark. Rio de Janeiro: FUNARTE, 1980, p. 27.

6.5.08

Dissertação de mestrado Lygia Clark e Merleau-Ponty: Paralelos

A minha dissertação está disponível na íntegra através do site da Unicamp, basta realizar um cadastro simples e fazer o download. Acesse o link :
http://libdigi.unicamp.br/document/?code=vtls000416302

Ou entre pelo link do blog. Aguardo cometários, pitacos e discussões.

2.5.08

Lygia Clark e Maurice Merleau-Ponty: uma costura (Parte 1 de 3)


Machado de Assis, em seu conto “Um apólogo”, descreve uma discussão entre um carretel de linha e uma agulha, na qual ambas tentam provar, uma à outra, que são o elemento fundamental da costura: uma por abrir o pano e a outra por mantê-lo unido e aparecer como resultado final. Não entro no mérito moral do conto e fico apenas com a metáfora.
Assim sendo, o que está à mostra aqui são apenas linha e tecido, mas não podemos nos esquecer que para que a costura permanecesse em seu lugar foi necessário encontrar os pontos para abrir espaços nos tecidos da teorização merleaupontyana e nas proposições clarkianas. Ou seja, o que aparece aqui é fruto do processo.
Minhas atenções estão especialmente voltadas para o processo como o modo de ser da obra, dentro de uma abordagem fenomenológica, característica esta que marca tanto Lygia Clark (1920-1988) quanto Maurice Merleau-Ponty (1908-1961).
As idéias de Ponty propõem constantemente o abandono das conclusões prévias a fim de que adotemos uma postura que mantenha as características fundamentais das coisas, ou seja, o seu caráter provisório e inacabado. O processo é para Merleau-Ponty o único modo de compreensão do mundo que respeita sua “essência”; a teorização sobre ele vem em segundo plano.
Já com Lygia Clark o processo se dá tanto na confecção de suas obras como no próprio modo de ser delas, assim como nas vivências propiciadas por diversas de suas proposições. Lygia descreve em carta ao amigo e artista plástico Hélio Oiticica esta perda de lugar da obra em nome da vivência possibilitada por ela. Em seu discurso podemos perceber que a obra é um instrumento que está a serviço da transformação do ser humano.

Por Deus a vida é sempre para mim o fenômeno mais importante e esse processo quando se faz e aparece é que justifica qualquer ato de criar, pois de há muito a obra para mim cada vez é menos importante e o recriar-se através dela é que é o essencial.[i]

É claro que os escritos de Merleau-Ponty e as proposições de Lygia Clark não são equivalentes, mas discutem situações semelhantes. Assim, procuro evidenciar, em ambos, o processo de criação e de transformação das obras, fato ressaltado, diversas vezes, por seus críticos e estudiosos. Por exemplo, o filósofo italiano Andrea Bonomi, diz que Merleau-Ponty destaca-se pela sua capacidade de “ler os filósofos sem embalsamar-lhes o pensamento, de pensar, como uma vez ele escreveu, ‘em seu rastro’, e de neles encontrar mais um incitamento para a pesquisa do que respostas já prontas.”[ii] E é deste mesmo modo que buscarei compreender os escritos filosóficos de Merleau-Ponty, sem enrijecê-lo.
Durante toda a sua carreira, Merleau-Ponty se interessou em acompanhar os “processos das coisas”, como, por exemplo: o modo como o homem percebe o mundo, os processos da linguagem, o desenvolvimento humano, o processo de criação artística, a interlocução com as obras de arte e o contato entre homem e mundo.
Podemos, então, perguntar por que o processo interessava tanto a Ponty, e para essa questão temos algumas respostas possíveis: primeiramente, porque o processo garante a experimentação e a experiência; durante o fazer os resultados ainda não estão prontos, permanecem instáveis, podendo ser modificados a qualquer momento. Em segundo lugar, porque o filósofo não se interessava pela simples relação entre causa e conseqüência, pois esta relação não descortina o modo como os fenômenos se dão, não revela o acontecimento. O estabelecimento da causalidade, via de regra, está embutida de uma valorização errônea, pois separa em duas partes o todo.

O mundo não é um objeto do qual possuo comigo a lei de constituição; ele é o meio natural e o campo de todos os meus pensamentos e de todas as minhas percepções explícitas.[iii]

Como coloca Ponty, tanto o mundo como nossa percepção dele não são elementos dados a priori, pelo contrário, são elementos que só se dão no processo. Desta maneira, podemos compreender a importância desse constante fazer para o filósofo.
Mas não é só para Merleau-Ponty que este estado “gerundial” é imprescindível, Lygia também mantém o foco de sua trajetória no processo e não na obra, demonstrando claramente o seu despojamento com relação ao universo artístico: “Aliás, eu sempre disse que, para mim, fazer arte era antes me elaborar como ser humano; não era ter nome ou ter qualquer tipo de conceituação.”[iv]


[i] CLARK, Lygia. “Carta de 26.10.1968, França.” In FIGUEIREDO, Luciano (org.). Lygia Clark – Hélio Oiticica: Cartas, 1964-1974. Rio de Janeiro: UFRJ, 1996, p. 56.
[ii] BONOMI, Andrea. Fenomenologia e estruturalismo. São Paulo: Perspectiva, 1974, p. 23.
[iii] MERLEAU-PONTY, Maurice. Fenomenologia da Percepção, op. Cit., p. 6.
[iv] Clark, Lygia. “Entrevista a Luciano Figueiredo e Matinas Suzuki”. In FIGUEIREDO, Luciano e SUZUKI JR., Matinas. “A quebra da moldura”. Folhetim, Folha de São Paulo, São Paulo, 02.03.1986, p. 2.


*Texto extraído de minha dissertação de mestrado: "Lygia Clark e Merleau-Ponty: paralelos" Unicamp - 2007