imagem: rogério pinto

29.7.09

Jean Dubuffet



Fui neste último final de semana na Exposição de Jean Dubuffet no Instituto Tomie Ohtake, e por isso convido a todos, ou melhor convoco!!!!!! para partilharem dessa experiência com a obra fascinante de um artista extraordinário.Aqui a palavra extra-ordinário é precisa, pois Dubuffet foge da ordem da arte, do status do artista, dos maneirismos em geral. Ele está inteiro presente em seus trabalhos, as telas tem vida, força, expressividade. Me sentia admirando os desenhos de cavernas, mergulhando numa ancestralidade hunama, me reconhecendo como "homo sapiens-demens" (citando Leonardo Boff). Seus territórios de cor ganham corpo e em determinado momento de sua trajetória até se tridimensionalizam e são encenados em uma grande performance-espetáculo.

“Artista ímpar, cioso de sua singularidade, Jean Dubuffet pôs-se resolutamente à margem das correntes dominantes da arte contemporânea, ao rechaçar toda e qualquer herança e haurir em fontes outras, que não as da modernidade, os fluxos que conduzirão sua obra (...) o trabalho de Dubuffet deve igualmente ser considerado uma entidade autônoma, com seu ritmo próprio de evolução e suas propriedades constantes“, escreve Alfred Pacquement, diretor do Museu Nacional de Arte Moderna – Centre Georges Pompidou, em seu ensaio sobre o artista,
que fará parte do catálogo da exposição no Brasil.

Fiquei muito emocionada com a exposição, porque embora desejasse que tivesse mais obras (desejo frequente com relação a todas as coisas que eu gosto), cada uma delas te sugava para dentro de seu universo particular. MARAVILHOSO!!!!!!! IMPERDÍVEL!!!!!!
JEAN DUBUFFET
Quando: de terça a domingo, das 11h às 20h, até 7/9 Onde: Instituto Tomie Ohtake (r. Coropés, 88, tel. 0/xx/11/2245-1900)
Quanto: entrada franca

3.7.09

Desbloqueando a imaginação e a criatividade


Desbloqueando a imaginação e a criatividade

Coordenação: Daniela Pinoti e Marcelo Maluf

Objetivo:
A proposta é estimular a criatividade e a imaginação por meio de atividades plásticas e de escrita criativa, entre outras dinâmicas. O público participará de exercícios e dinâmicas de estímulo a produção criativa, a fim de desenvolver ao máximo a criatividade e a imaginação.

Metodologia:
O método de trabalho focará em exercícios prático e dinâmicas individuais e de grupo. Exercícios de imaginação e criatividade.

Público-alvo:
Professores, estudantes de arte, psicologia, publicidade, artistas, escritores e pessoas interessadas em desbloquear a imaginação e a criatividade.

Certificado:
Será conferido pela Universidade Cruzeiro do Sul e o Grupo Labmind como curso de extensão universitária.

Sobre os professores:

Daniela Pinotti é psicóloga, Mestre em artes visuais pela UNICAMP. Publicou o livro “Drogas: Prevenção e Tratamento – O que você queria saber e não tinha a quem perguntar” (Ed. CLA), indicado ao prêmio Jabuti na categoria de melhor livro de educação e psicologia em 2003. É professora convidada da PUC/Paraná. Escreveu o livro infanto-juvenil "Meu pai sabe voar" em parceria com Marcelo Maluf, com lançamento previsto para 2009 (FTD).

Marcelo Maluf é escritor, músico e professor. Mestre em Artes pelo Instituto de Artes da UNESP. Autor das novelas infanto-juvenis: "Meu pai sabe voar" (FTD) em parceria com Daniela Pinoti, com lançamento previsto para 2009, "Jorge do Pântano que fica logo Ali"(2008) também pela FTD, o e-book: Construção, pela Mojo Books. Organizou a antologia de contos infanto-juvenis “Era uma vez para Sempre” (Terracota), tem contos publicados em antologias, sites e revistas. E é baterista da banda Performática, liderada pelo artista multimídia José Roberto Aguilar.

Quando:
Turma 1: sábado, 18 de Julho, das 9h às 13h
Turma 2: segunda, 20 de julho, das 18h30 às 22h30

Carga horária: 4h
Número de alunos por turma: mínimo de 10 alunos e máximo de 25.

Local do Curso: Espaço Cultural Terracota - Av. Lins de Vasconcelos, 1886 - Vila Mariana - São Paulo/SP
Investimento: 130 reais.
Alunos da Cruzeiro do Sul e aqueles que frequentaram as oficinas e palestras da Labmind têm 10% de desconto.


Dúvidas
11-2675-0549


6.5.09

Curso: Movimentos da Arte Moderna - História e Processos de Criação


Curso:
MOVIMENTOS DA ARTE MODERNA:
HISTÓRIA E PROCESSOS DE CRIAÇÃO

OBJETIVO:
O curso será uma introdução à história da Arte Moderna e seus processos de criação, por meio das teorias dos movimentos de vanguarda e de suas propostas criativas, dando ênfase aos aspectos estéticos e psicológicos da produção desses artistas.

METODOLOGIA:
O método de trabalho focará na história da arte e na teoria desses movimentos e destacará os seus principais artistas. Dinâmicas de criação, individuais e em grupos, ajudarão os alunos a compreenderem esses movimentos.

PÚBLICO ALVO:
Professores, estudantes de arte, pessoas interessadas em ampliar conhecimentos em artes visuais e história da arte.

CERTIFICADO: Será conferido pela Universidade Cruzeiro do Sul e o Grupo Labmind.

MÓDULOS: serão 4 encontros:
- O que é modernismo? As vanguardas.
- Pós-impressionismo e Expressionismo.
- Cubismo e Arte Abstrata.
- Dadaísmo e Surrealismo.
Professores:
Marcelo Maluf, é Mestre em Artes Visuais e graduado em Licenciatura plena em Artes Plásticas pela Unesp, escritor e músico.
Daniela Pinotti, é Mestre em Artes Visuais pela Unicamp, graduada em Psicologia pela PUC/SP, psicóloga clínica e escritora.

Início: Quartas-feiras. Das 19h às 22h
Duração: 4 semanas.
Início: 3 de junho
Carga horária: 12 horas
Local do Curso: Espaço Cultural Terracota - Avenida Lins de Vasconcelos, 1886 - São Paulo - SP. Inscrições e outras informações pelo Tel: 2645-0549 ou e-mail: labmind@labmind.com.br

Investimento total: R$150,00

28.4.09

Dica de curso sobre Arte Contemporânea

CURSO:
Capítulos da Arte Contemporânea
com Fabio Tremonte e Lais Myrrha - artistas.
Início: 06 de maio
Duração: 2 mesesDias: quartas-feiras, das 20h às 22hVagas: 15
Preço: R$ 200,00
Público: artistas, estudantes e interessados em artes.

O curso pretende discutir alguns eixos prático-teóricos recorrentes em parte da produção artística da atualidade. As discussões teóricas serão fomentadas por propostas práticas que comporão o processo de análise e debate acerca das obras. No primeiro capítulo abordaremos a pintura contemporânea e algumas possíveis interpenetrações entre arte, arquitetura e design. Trabalharemos com artistas como Matisse, Beatriz Milhazes, Adriana Varejão, Dan Flavin, Robert Morris, Daniel Pflumm, Gabriel Sierra, Carlos Garaicoa, Franz Ackermann, Liam Gillick, Francis Alÿs, On Kawara, Dóris Salcedo, Fábio Miguez, Laura Lima, Andy Warhol. Michel Majerus, Rubens Mano, Hélio Oiticica, Hector Zamora, Dan Graham, Marjetica Potrč, entre outros.
Maiores informações:
Espaço Éden: rua Lisboa, 285 - Pinheiros, São Paulo, SP. tel: (11) 3063-2299 - 7262-9971 (Alcione).

13.4.09

Aproximações: Caligrafia árabe e Jackson Pollock


Jackson Pollock, nas palavras de Barnett Newman tem uma “vontade ritualista”, e toda gestualidade de sua pintura – action painting – está carregada de uma mitologia pessoal e o desejo de um corpo a corpo com a pintura, de um ato de entrega total, um gesto que em si é a própria pintura e que, enfim, nos deixa um resultado visual lírico, monumental e por que não dizer, decorativo. Ou seja, não há o que ler na pintura de Pollock, não há nenhum símbolo, nenhuma narrativa, sua pintura é anti-dramática e anti-reflexiva. Porém, contemplativa e transcendente. As palavras do próprio artista nos ajudarão a compreender essa idéia: “Quando estou em minha pintura, não tenho consciência do que estou fazendo”.

Talvez aí resida a aproximação da pintura de Pollock com a arte da caligrafia árabe. Se o pintor trabalha com linhas e cores para conquistar o espaço da tela, os calígrafos escrevem/desenham com cores e linhas para conquistar, em sua intenção, o que há de contemplativo e transcendente nas palavras e versos sagrados do Alcorão. Há uma ação que quer atingir os sentidos do sensível pelo simbólico, seja através das palavras que significam (no caso do calígrafos) e são linhas para o ornamento, ou nas linhas e pinceladas, e cores (no caso dos pintores) onde se pode ler o não-dito, o símbolo sem o verbo da linguagem escrita. Também podemos perceber na caligrafia uma gestualidade e um lirismo decorativo e ornamental até, muitas vezes, perder-se a narrativa, e dizer o indizível. Necessidade interior de contemplar e transcender, tanto na caligrafia árabe quanto na pintura de ação de Pollock.

19.3.09

O Caleidoscópio de Flávio de Carvalho


Flávio de Carvalho - O artista total, de Rui Moreira Leite



Flávio de Carvalho (1899-1973) foi um visionário, um desbravador de caminhos. Múltiplo: expressionista, dadaísta, surrealista, artista conceitual (antes mesmo de o termo existir). Sempre na contracorrente. Na orelha do livro, assinada pelo também pioneiro e visionário artista Eduardo Kac, ele indaga: Um homem que viveu plenamente o seu tempo, ou um artista que desafiou as convenções do presente e criou o futuro da arte? E concluiu que Flávio foi ambos.
Mas aqui importa dizer que ao reunir todas essas características no presente livro, o autor Rui Moreira Leite nos revela a qualidade assombrosa da obra de Flávio de Carvalho e nos pede para olhá-la como num caleidoscópio: as diversas faces do artista formam uma imagem total num arranjo simétrico e cheio de beleza. Moreira Leite mergulha na obra de Flávio e nos entrega o resultado de um estudo sério, feito com rigor e, ao mesmo tempo, delicioso de se ler. Apresenta um panorama histórico e conceitual da obra do modernista. E vai do Flávio arquiteto, passando pelo pintor, desenhista, aquarelista, pelo artista dos eventos e das ações, como em Experiência no. 2, em 1931, ( ao caminhar com boné no sentido contrário a uma procissão de Corpus Christi), o que o artista chamou de experimento de psicologia das multidões, e continua: fala do Flávio agitador cultural, do escritor, do cenógrafo, do criador do teatro da experiência, do pesquisador (interessado em psicanálise e etnologia), do criador do traje de verão masculino. Enfim, a obra de Moreira Leite investiga o artista de maneira precisa; do ilustrador de periódicos em 1920 à figura central do meio artístico paulista em que Flávio se tornou nos anos seguintes.


Ainda é importante dizer que em meados de 1930, Flávio de Carvalho integrou o grupo antropofágico de Oswald de Andrade. Na década de 1960, foi procurado pelos artistas do Grupo Rex (Nelson Leirner, Wesley Duke Lee, entre outros), e pela geração da Tropicália. Não há como deixar de aproximar o artista carioca Hélio Oiticica de Flávio de Carvalho que, assim como ele, tinha ousadia e não-adequação aos padrões artísticos e institucionais vigentes. O legado de Flávio de Carvalho vai além, e chega até os nossos dias influenciando as manifestações artísticas contemporâneas, no que diz respeito à experimentação e a aproximação da relação arte e vida. Isso apenas para citar algumas das marcas deixadas por Flávio de Carvalho em nossa cultura.
Alguns dos seus projetos que propunham mudanças no comportamento da humanidade, como em suas Experiências, não chegaram a atingir objetivo transformador na consciência dos espectadores. No entanto, não há dúvida de que, como no poema “O artista Inconfessável”, do poeta pernambucano João Cabral de Melo Neto: “(...) entre fazer e não fazer/ mais vale o inútil do fazer./ Mas não, fazer para esquecer/ que é inútil: nunca o esquecer./” E, certamente, esta é uma das contribuições preciosas deste trabalho; o de trazer para o tempo presente a obra desse artista total e revelar que ela ainda está provocando e nos tirando do lugar comum.
O livro de Rui Moreira Leite deve ser saudado com entusiasmo, pois nos faz compreender que essa turbulência mental e criativa de Flávio de Carvalho e suas atitudes provocadoras criaram uma obra caleidoscópica, única, das mais importantes e influentes dentro da cultura brasileira, para o seu tempo e para os dias de hoje.

18.5.08

Vídeo montagem sobre Lygia Clark

Para os interessados deêm uma olhadinha na montagem que fiz com as obras de Lygia e a música que o Caetano Veloso fez para ela.

Acesse o Link:

http://www.youtube.com/watch?v=TYRcKaXw6EQ

Lygia Clark e Maurice Merleau-Ponty: uma costura (Parte 3 de 3)


O tempo passado, no Caminhando, tem a característica da “redescoberta” do ato, e o tempo futuro vem das escolhas e da continuidade do gesto. Mas essas duas esferas temporais não estão dissociadas do presente, muito pelo contrário, elas só se dão no presente e só são possíveis através da experiência que é plena e incompleta ao mesmo tempo, porque lhe é característico permanecer aberta.
Tanto Lygia quanto Merleau-Ponty, cada um a sua maneira, propunham que “o caminho se faz ao caminhar”, por isso, as relações eram constantemente construídas e transformadas, como ilustram tão brilhantemente os versos de Antonio Machado:


Caminante son tus huellas

el camino, y nada más;

caminante, no hay camino,

se hace camino al andar.

Al andar se hace camino,

Y al volver la vista atrás

Se vela senda que nunca

Se ha de volver a pisar.

Caminante, no hay camino,

Sino estelas en la mar.[1]

Se não há caminho, pois este deve ser traçado a cada passo, o grande destino a ser atingido é o da experimentação, pois os “passos” é que são fundamentais para a jornada e não o local que se precisaria alcançar. Mais do que isso, os passos desaparecem logo após serem dados, exaltando com isso a relevância do presente, os versos nos orientam e aconselham: “caminhante” se não há caminho entregue-se à caminhada, entregue-se à experiência e atribua a cada passo uma importância ímpar, pois este jamais poderá ser dado novamente.
Não estou com isso querendo negar os pressupostos históricos que sustentam Lygia Clark e Maurice Merleau-Ponty, mas apenas me aproximando dos fundamentos destas obras, que viam na experimentação seus embasamentos e, no processo, um momento mais importante do que o trabalho acabado, uma vez que, ele já era o próprio trabalho. Conforme as palavras de Ponty:


Se a fenomenologia foi um movimento antes de ser uma doutrina ou um sistema, isso não é nem acaso nem impostura. Ela é laboriosa como a obra de Balzac, de Proust, de Valéry ou de Cézanne – pelo mesmo gênero de atenção e de admiração, pela mesma exigência de consciência, pela mesma vontade de apreender o sentido do mundo ou da história em estado nascente.[2]

Merleau-Ponty compara a construção da filosofia fenomenológica à construção das obras de arte. É uma edificação do pensamento, que, por tentar apreender o mundo e não teorizar sobre ele, necessita de uma atenção especial, que nunca se distancia de seu “objeto” de estudo. Contraria-se assim os pressupostos que pregam que o pesquisador e/ou o teórico deve se manter o mais distante possível de seu “objeto” de estudo, a fim de que se conserve uma suposta e pretensa neutralidade científica, a qual, para Ponty, não há como existir.


Pela primeira vez a meditação do filósofo é consciente o bastante para não realizar no mundo e antes dela os seus próprios resultados. (...) O mundo fenomenológico não é explicitação de um ser prévio, mas a fundação do ser; a filosofia não é o reflexo de uma verdade prévia mas, assim como a arte, é a realização de uma verdade.[3]

Esta neutralidade, também é exigida, de certo modo, com relação às obras de arte, mas Lygia faz questão de negá-la. Quebrando os limites tanto da obra como dos espaços expositivos, Lygia rompe com as distâncias exigidas pelo mundo da arte, tanto quanto Ponty quebra com as distâncias do mundo acadêmico.
Assim sendo é a condição de ser-no-mundo que fundam os trabalhos de Lygia Clark e Merleau-Ponty.


[1] MACHADO, Antonio. Poesias escogidas. Madrid: Aguilar, 1958, p. 254.
[2] MERLEAU-PONTY, Maurice. Fenomenologia da Percepção. op. Cit., p. 20.
[3] Idem. p. 18 e 19.

14.5.08

Lygia Clark e Maurice Merleau-Ponty: uma costura (Parte 2 de 3)

Lygia é incansável, a descoberta é o seu lema e sua maior virtude. As rupturas propostas por suas obras ou proposições são resultados, quase diretos, desta necessidade veemente de transformação.
“Só o instante do ato é vida”, afirmou Lygia Clark em 1965:

O instante do ato não é renovável. Ele existe por si próprio: o repetir é lhe dar uma significação. Ele não contém nenhum traço da percepção passada. É um outro momento. No mesmo momento em que ele se desenrola, ele já é uma coisa em si. Só o instante do ato é vida. Por natureza, o ato contém em si mesmo seu próprio excesso, seu próprio vir-a-ser. O instante do ato é a única realidade viva em nós mesmos. Tomar consciência já é ser no passado. A percepção bruta do ato é o futuro de se fazer. O passado e o futuro estão implicados no presente-agora do ato.[i]

Fica nítido, que sua criação e sua vivência estiveram, ao longo de sua existência, sempre ligados, e essa relação refletia-se em sua produção diretamente.
Para tanto, gostaria de traçar algumas considerações sobre a obra que representa uma das maiores rupturas da trajetória de Lygia, o Caminhando, de 1964. A obra se constitui de abrir uma fenda em uma tira de papel colada com uma torção de 180º, constituindo uma fita de Moebius, e quando chegar no corte inicial escolher entre continuar à direita ou à esquerda.
É evidente que cada um de nós pode fazer o Caminhando, pode inclusive realizá-lo diversas vezes, sem nunca deixar de ser, concomitantemente, o mesmo e um outro. Pela ação somos impelidos à totalidade. O corte nos faz pensar na intencionalidade e na aleatoriedade de cada gesto.

Com Caminhando fazemos escolhas, optamos por caminhos, mudamos de direção, provocamos o destino, nos perdemos, nos encontramos, temos dúvidas, temos certezas, somos exatos, hesitamos, desistimos, somos pacientes, obsessivos, descuidados, ficamos atentos, brincamos, andamos a grandes cortes, tomamos cuidado, somos indiferentes, nos arrependemos, nos entregamos, morremos. Todas as sensações e questionamentos cabem enquanto dura a experiência.
Portanto, a obra repete a condição humana em si, à de sermos sempre os mesmos e mudarmos constantemente. Desta maneira, esta “obra” poderia ser considerada uma “ode ao processo”.
Neste caso, o que temos é uma ação que só tem a intenção de existir, e não de significar, interpretar ou aludir a outras ações. O gesto é tomado por ele mesmo, com toda a intensidade do instante, sem “ter olhos” para o “por quê” ou para o “com que finalidade” este ato está sendo executado. É a suposta “banalidade” da ação de cortar o papel, que devolve o ser a ele mesmo, que o faz redescobrir a própria mão, o sentir, o escolher, enfim, a liberdade. Assim, a efemeridade da obra contrasta com a duração do sentido da vivência da obra, pois este fica fecundando passado, presente e futuro com suas provocações. A experiência não se encerra nela mesma, o Caminhando continua sempre no gerúndio, permanece infinitamente se fazendo.


[i] CLARK, Lygia. “1965: A propósito do instante”. In: CLARK, Lygia. Lygia Clark. Rio de Janeiro: FUNARTE, 1980, p. 27.

6.5.08

Dissertação de mestrado Lygia Clark e Merleau-Ponty: Paralelos

A minha dissertação está disponível na íntegra através do site da Unicamp, basta realizar um cadastro simples e fazer o download. Acesse o link :
http://libdigi.unicamp.br/document/?code=vtls000416302

Ou entre pelo link do blog. Aguardo cometários, pitacos e discussões.

2.5.08

Lygia Clark e Maurice Merleau-Ponty: uma costura (Parte 1 de 3)


Machado de Assis, em seu conto “Um apólogo”, descreve uma discussão entre um carretel de linha e uma agulha, na qual ambas tentam provar, uma à outra, que são o elemento fundamental da costura: uma por abrir o pano e a outra por mantê-lo unido e aparecer como resultado final. Não entro no mérito moral do conto e fico apenas com a metáfora.
Assim sendo, o que está à mostra aqui são apenas linha e tecido, mas não podemos nos esquecer que para que a costura permanecesse em seu lugar foi necessário encontrar os pontos para abrir espaços nos tecidos da teorização merleaupontyana e nas proposições clarkianas. Ou seja, o que aparece aqui é fruto do processo.
Minhas atenções estão especialmente voltadas para o processo como o modo de ser da obra, dentro de uma abordagem fenomenológica, característica esta que marca tanto Lygia Clark (1920-1988) quanto Maurice Merleau-Ponty (1908-1961).
As idéias de Ponty propõem constantemente o abandono das conclusões prévias a fim de que adotemos uma postura que mantenha as características fundamentais das coisas, ou seja, o seu caráter provisório e inacabado. O processo é para Merleau-Ponty o único modo de compreensão do mundo que respeita sua “essência”; a teorização sobre ele vem em segundo plano.
Já com Lygia Clark o processo se dá tanto na confecção de suas obras como no próprio modo de ser delas, assim como nas vivências propiciadas por diversas de suas proposições. Lygia descreve em carta ao amigo e artista plástico Hélio Oiticica esta perda de lugar da obra em nome da vivência possibilitada por ela. Em seu discurso podemos perceber que a obra é um instrumento que está a serviço da transformação do ser humano.

Por Deus a vida é sempre para mim o fenômeno mais importante e esse processo quando se faz e aparece é que justifica qualquer ato de criar, pois de há muito a obra para mim cada vez é menos importante e o recriar-se através dela é que é o essencial.[i]

É claro que os escritos de Merleau-Ponty e as proposições de Lygia Clark não são equivalentes, mas discutem situações semelhantes. Assim, procuro evidenciar, em ambos, o processo de criação e de transformação das obras, fato ressaltado, diversas vezes, por seus críticos e estudiosos. Por exemplo, o filósofo italiano Andrea Bonomi, diz que Merleau-Ponty destaca-se pela sua capacidade de “ler os filósofos sem embalsamar-lhes o pensamento, de pensar, como uma vez ele escreveu, ‘em seu rastro’, e de neles encontrar mais um incitamento para a pesquisa do que respostas já prontas.”[ii] E é deste mesmo modo que buscarei compreender os escritos filosóficos de Merleau-Ponty, sem enrijecê-lo.
Durante toda a sua carreira, Merleau-Ponty se interessou em acompanhar os “processos das coisas”, como, por exemplo: o modo como o homem percebe o mundo, os processos da linguagem, o desenvolvimento humano, o processo de criação artística, a interlocução com as obras de arte e o contato entre homem e mundo.
Podemos, então, perguntar por que o processo interessava tanto a Ponty, e para essa questão temos algumas respostas possíveis: primeiramente, porque o processo garante a experimentação e a experiência; durante o fazer os resultados ainda não estão prontos, permanecem instáveis, podendo ser modificados a qualquer momento. Em segundo lugar, porque o filósofo não se interessava pela simples relação entre causa e conseqüência, pois esta relação não descortina o modo como os fenômenos se dão, não revela o acontecimento. O estabelecimento da causalidade, via de regra, está embutida de uma valorização errônea, pois separa em duas partes o todo.

O mundo não é um objeto do qual possuo comigo a lei de constituição; ele é o meio natural e o campo de todos os meus pensamentos e de todas as minhas percepções explícitas.[iii]

Como coloca Ponty, tanto o mundo como nossa percepção dele não são elementos dados a priori, pelo contrário, são elementos que só se dão no processo. Desta maneira, podemos compreender a importância desse constante fazer para o filósofo.
Mas não é só para Merleau-Ponty que este estado “gerundial” é imprescindível, Lygia também mantém o foco de sua trajetória no processo e não na obra, demonstrando claramente o seu despojamento com relação ao universo artístico: “Aliás, eu sempre disse que, para mim, fazer arte era antes me elaborar como ser humano; não era ter nome ou ter qualquer tipo de conceituação.”[iv]


[i] CLARK, Lygia. “Carta de 26.10.1968, França.” In FIGUEIREDO, Luciano (org.). Lygia Clark – Hélio Oiticica: Cartas, 1964-1974. Rio de Janeiro: UFRJ, 1996, p. 56.
[ii] BONOMI, Andrea. Fenomenologia e estruturalismo. São Paulo: Perspectiva, 1974, p. 23.
[iii] MERLEAU-PONTY, Maurice. Fenomenologia da Percepção, op. Cit., p. 6.
[iv] Clark, Lygia. “Entrevista a Luciano Figueiredo e Matinas Suzuki”. In FIGUEIREDO, Luciano e SUZUKI JR., Matinas. “A quebra da moldura”. Folhetim, Folha de São Paulo, São Paulo, 02.03.1986, p. 2.


*Texto extraído de minha dissertação de mestrado: "Lygia Clark e Merleau-Ponty: paralelos" Unicamp - 2007

30.4.08

Parangolés e Cobra Norato: Um diálogo

Nos Parangolés de Hélio Oiticica, que são espécies de capas, mantos, roupas, estandartes para se vestir e com eles dançar, é possível também reconhecer características Antropofágicas. Adentrar uma pele, vestir e sair por aí dançando, é uma atividade que tem parentesco, em nossa literatura, com o poema Cobra Norato (escrito em 1928 e publicado em 1931), emblema do Modernismo brasileiro e Poema Antropofágico por excelência, do poeta Raul Bopp:
A noite chega mansinho
Estrelas conversam em voz baixa
Brinco então de amarrar uma fita no pescoço
e estrangulo a Cobra. Agora sim
me enfio nessa pele de sede elástica
e saio a correr mundo (BOPP, 1998, p. 3)

Hélio Oiticica. Parangolé P4 Capa 1, 1964, Nildo da Mangueira veste Parangolé. Materiais diversos.


Hélio Oiticica. Parangolé, 1964. Materiais diversos.

É possível relacionar a imagem poética de Bopp, estrangulando e se apropriando da pele da cobra para correr o mundo e vivenciá-lo com o ato de vestir um Parangolé e sair por aí e dançar. O participante se apossa de outra pele e, podemos dizer que “estrangula” o espaço bidimensional da pintura, que corre o mundo com uma nova “pele” no corpo. Penetra-se a pele/tecido do Parangolé, invade-se o espaço grudado ao próprio corpo, experimenta-se a cor no tempo, no movimento, no espaço. Como na lenda de Cobra Norato, onde o sujeito estrangula a cobra e se veste com sua pele para não ser a cobra, mas para ser dentro dela, algo novo. O mesmo acontece com quem veste o Parangolé que experimenta em si mesmo, em seu corpo, a cor, o tempo, o espaço, como um desdobrar Antropofágico das idéias dos Construtivistas, só que agora a participação do espectador é fundamental. Pele que deve ser vestida para que a obra tenha vida. Ou, nas palavras do filósofo e crítico de arte Antonio Cícero:

Mais importante: o Parangolé não pode ser exposto como uma pintura convencional. Ele deve ser não apenas visto mas tocado: e não apenas tocado mas vestido. O corpo compõe com o Parangolé que veste uma unidade sempre nova. (CÍCERO, 1995, p. 186-7)

Portanto, com o Parangolé se percebe, seja na devoração/estrangulação da pintura convencional ou na nova unidade que sempre é percebida, através dos diferentes corpos que assumem o corpo/pele Parangolé, a mais profunda filiação a Antropofagia Osvaldiana ou a pele/capa da Cobra Norato de Raul Bopp.
O ato de vestir uma capa ou manto tem uma carga simbólica em diversas tradições espirituais. Por exemplo, um monge cristão no momento de proferir seus votos e se afastar do mundo se cobre com um manto ou capa. Um gesto que caracteriza simbolicamente a sua retirada do mundo a caminho de si mesmo, aproximando-se de Deus. Renúncia das tentações do mundo material. O ato de vestir um manto nesse sentido é uma escolha pela sabedoria, é adotar uma compostura, uma função, de que a capa é símbolo. O manto/capa Parangolé se insere nessa tradição, a de ser elemento ritual e simbólico. Um acontecimento quase mítico ao compor a experiência daquele que veste a capa e dança numa fusão manto/corpo/cor/tempo/espaço. O espectador é a obra. Vestir a capa Parangolé é um acontecimento de que o sujeito é agente ativo, necessário para que a “pele” ganhe vida e sentido. Numa relação de profunda intimidade com o participante.
Bibliografia:
BOPP, Raul. Cobra Norato. Rio de Janeiro: José Olympio, 1998.
CÍCERO, Antonio. O mundo desde o fim. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1995.
(texto originalmente escrito para dissertação do meu mestrado: "Hélio Oiticica: antropófago de si mesmo").

6.4.08

A subjetividade do abandono na pintura de Rogério Pinto



A pintura de Rogério Pinto quer resignificar a imagem, refazê-la, reconstruí-la, deformá-la, tirá-la da fôrma, dar nova forma, poetizá-la. E a princípio esta sempre foi a consciência daqueles que se aplicaram a arte pictórica. No entanto, para isso, Rogério faz uso de imagens oriundas da fotografia; as seleciona, recorta, escolhe e compõe uma espécie de colagem no computador, depois as imprimi na tela. Este primeiro gesto mecânico antecede a ação física da pintura, mas não é menos importante.


A memória da primeira imagem, para não se perder, luta contra o esquecimento. Rogério quer anular o processo inicial, e do embate (raspar, sobrepor camadas de tinta, repintar e apagar figuras) entre uma imagem eleita e a composição pictórica, nasce a sua poética: dar um novo corpo para um registro visual encarcerado e esquecido no tempo.
Rogério une símbolos perdidos entre si e os harmoniza como se tivessem vivido juntos desde sempre; uma girafa com o número 5, uma garotinha sentada com uma pantufa de coelhinho, um cabide suspenso e um sapato são companhias para um rosto que não se vê e o número 2.
Rogério faz pintura por excelência; a cor e o espaço bidimensional são o seu material bruto, mas não dá para chamá-lo de formalista, isso seria reduzir o potencial simbólico de seu trabalho.
Deste modo, a sua pintura é, em seu processo, impregnada de uma subjetividade do abandono, daquilo que está desamparado, deixado de lado, largado. São imagens que ninguém mais quer que Rogério escolhe para o seu trabalho, explico: Rogério não escolhe imagens populares de famosos ou de apelo midiático, opta pelas esquecidas. Processo, aliás, que apesar de resultar numa pintura, está desde seu início tomado pela idéia do registro fotográfico e de seu rastro, sua memória no tempo.


Pinturas como o Homem Dividido (acima), e mesmo uma série de retratos anônimos são representações do abandono, do esquecimento, daquilo ou daquele que já não interessa e que Rogério dá novo sentido, reelaborando, desmembrando e recompondo as coisas, os seres e os signos que evoca. Com gestos que estão entre ternura e vigor, apropriação e criação, figuração e abstração, impermanência e eternidade, urgência e contemplação.
Parece que a pintura de Rogério quer nos dizer que sem o encontro com o passado o presente se esvazia e, por isso, desmembra os corpos, como se emergisse daquela imagem primeira o homem contemporâneo; cindido e sem unidade por si. Ressalta e valoriza as partes: um pé, um chapéu, uma cabeça, um sapato, uma parte de um animal, um número; para reorganizá-los. E no ato de composição/compaixão Rogério os harmoniza com o presente, revelando as partes que compõe o todo e vice-versa, dando-lhes vida nova, enchendo-lhes de sentido e de uma esperança velada por sua aparente desilusão.


E exatamente por anular em seu processo criativo o que, de certa maneira já estava anulado pelo tempo e desinteresse alheio, é que as imagens fotográficas inicialmente escolhidas por Rogério - figuras de abandono – renascem em sua pintura como a ave mitológica Fênix, só que já não são as mesmas.